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Concursos, promoções e a concorrência especulativa

26 de July de 2007

Tenho visto, em muitos fóruns e sites de relacionamento, a prática de uma modalidade condenável de contratação: a concorrência especulativa, muitas vezes disfarçada de concursos ou “promoções”.

Vou dar alguns exemplos fictícios, para ilustrar as desvantagens desse tipo de prática:

1. Uma rádio quer um novo site. Para isso, entra numa comunidade do orkut e lança um desafio: os web designers montam um novo site para a rádio e enviam o novo projeto até o final do mês para o responsável pela rádio, que vai escolher o melhor projeto. O designer terá a honra de ter seu trabalho numa rádio online.

Aqui são duas coisas erradas: para se criar um site, não basta saber “é para uma rádio” e pronto. É necessário fazer uma análise da empresa, do público alvo… isso é conhecido como “briefing”. Sem ele, o projeto pode até ser bom, mas tem grandes chances de não se adequar ao cliente.

O segundo ponto é sobre várias pessoas enviando trabalhos. Que garantia você tem de que se a rádio gostar do seu projeto não vão passá-lo para algum “sobrinho do dono” que vai cobrar uma quantia ridícula para se inspirar na sua criação?

E o terceiro é o famoso “trabalhar de graça? nem pensar” =D

2. Um programador desenvolveu uma loja online e está vendendo o projeto para vários clientes. Ele entra num fórum e anuncia que paga 10 reais para o designer que fizer um cabeçalho em Flash para “personalizar” a loja do seu cliente. Os interessados enviam o material, e se a animação for aprovada, o pagamento é feito.

Ok, essa situação não é tão fictícia assim.

O primeiro erro aqui é do programdor, que vende o mesmo projeto para vários clientes. Por mais que uma loja virtual seja essencialmente a mesma, não é mudando o cabeçalho do layout que o projeto vai se adequar às necessidades de quem está adquirindo o site. É preciso um pouco mais do que isso – e esse “um pouco mais” obviamente não custará apenas R$ 10.

Claro que para profissionais diferentes o preço de um trabalho também é diferente. Mas na hora de cobrar por um trabalho a gente precisa levar em consideração vários fatores, desde o conhecimento que o profissional agrega ao trabalho até os gastos com energia elétrica. Por dez reais eu acredito que até pra dar um “bom dia” por e-mail ainda seja pouco.

Aqui, de novo, temos a questão da confiança: que garantias o designer tem de que a sua animação não será reaproveitada, e com a desculpa de que “não é bem isso que o cliente quer”, ele deixa de receber pelo seu trabalho?

3. Uma ONG quer remodelar o site. Pra isso, pede para os interessados enviarem exemplos de possíveis layouts pra conhecer melhor o trabalho de cada um.

Eu vejo por aí muitas ONGs que querem profissionais para desenvolver ou reformular seus sites de graça. Eu acredito que pela própria natureza da organização, a mentalidade que existe é que ter um site é uma coisa “supérflua”, e que não pode-se gastar dinheiro com isso.

Dependendo do tipo de trabalho que a ONG desenvolve, não é difícil conseguir um profissional voluntário, ou um simpatizante da causa que cobre um preço razoável. O importante, não só para organizações filantrópicas, como também para clubes, associações e todo tipo de grupo sem fins lucrativos, é ponderar se vale a pena entregar o site nas mãos de qualquer um que tem uma “noção de web design”. Às vezes o trabalho pode ser tão mal feito que a imagem da organização fica comprometida de uma maneira que não vale a pena.

Mas voltando ao exemplo, quem perde aqui é a própria instituição. Várias pessoas podem mandar templates prontos para simular como o site vai ficar depois de reformulado. Há muito tempo eu venho falando sobre templates aqui. A organização pode até achar o layout apresentado muito bom a um preço muito baixo, mas quando precisar adequar aquele template pronto às suas necessidades, o “profissional” não vai consequir fazer isso corretamente.

Repare que está tudo relacionado: o tipo de pessoa que é a favor do uso de templates genéricos para seu cliente geralmente cobra muito pouco (porque não teve trabalho para desenvolver o layout, portanto não agrega valor a ele e nem sabe o trabalho que isso dá), mas também não consegue personalizar nada no template além dos textos (porque se soubesse adaptar um layout pronto ao seu cliente, não precisaria de um template, desenvolveria seu próprio layout a partir do briefing).

Fora que a sensação de entrar num site e pensar “eu já vi esse layout em outro lugar” é péssima para a imagem do cliente.

 

Infelizmente, nós web designers não temos uma profissão regulamentada. Mas o Código de Ética Profissional do Designer Gráfico da Associação dos Designer Gráficos do Brasil determina, no 12º artigo, que “O Designer Gráfico não deve, sozinho ou em concorrência, participar de projetos especulativos pelo qual só receberá o pagamento se o projeto vier a ser aprovado.”

Não é exatamente o nosso campo de atuação, mas é um material muito interessante para qualquer profissional do design.

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6 comentários para “Concursos, promoções e a concorrência especulativa”

RSS dos comentários deste post
  1. Helder Santana 29/07/2007 às 5:36 pm

    Excelente análise de case.

    Até posso informar alguma idéia, mas entregando um briefing sem o pagamento, praticamente estarei entregando também a minha vaga a quem cobra mais barato.

    Abraço.

  2. Petter Gomes 30/08/2007 às 10:42 am

    A análise foi realmente interessante. Eu queria aproveitar o tema e fazer uma abordagem sobre um assunto próximo do que publicaste.
    Os copiadores de conteúdo. Eu vejo hoje em dia o mercado de web design, sistemas dinâmicos e desenvolvimento em geral, saturado de profissionais de Ctrl + C. Esses tipo de pessoa produz um terrível efeito no mercado de verdadeiros profissionais, pois eles não produzem realmente alguma coisa, apenas copiam, então oferecem um valor muito abaixo da realidade, desvalorizando o trabalho e forçando os verdadeiros produtores de conteúdo a baixar seu custo também. Um cliente que procura o desenvolvimento de seu site, encontra sempre esses copiadores que oferecem a preço de banana trabalhos que foram copiados, e no momento em que não conseguem mais atualizar o layout e percebem que contrataram um serviço amador, procuram um verdadeiro desenvolvedor e se assombram com o valor real de um produto bem feito.

    Esse tipo de atitude sempre será degradante para os artistas que fazem o seu trabalho de verdade.

  3. Erika Sarti 30/08/2007 às 10:48 am

    Petter é verdade… eu meio que evito o assunto porque ele me deixa exaltada demais, principalmente porque eu já peguei duas pessoas copiando este layout atual do portfolio nos seus próprios “portfolios”.

    Se uma pessoa não consegue criar seu próprio site e precisa copiar o trabalho de um profissional, como essa pessoa pode ter a cara de pau de vender alguma coisa pra alguém?

    Fico tão revoltada com essa postura que sempre que começo a escrever sobre isso acabo baixando o nível =D

  4. Danilo 25/03/2009 às 10:40 pm

    Erika, os dois links do artigo estão quebrados… :(

  5. Erika Sarti 25/03/2009 às 10:46 pm

    Danilo, obrigada pelo aviso. Infelizmente a ADG não disponibiliza mais o PDF com o código de ética. Uma pena, um material muito interessante.

  6. Porque a criação de uma marca não custa R$20? | Fernanda Carvalho 15/04/2009 às 2:58 pm

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